Inception: A Origem da Hipnose?

Hey pessoas! Demorei um pouquito, né?
Acho que faz jus ao tempinho que levei pra ver a bola da vez.

Depois de muita espera (e a possibilidade de conciliar o tempo com a namorada), finalmente fui aos cinemas assistir Inception – vulgo “A Origem” por aqui. Devo dizer que não foi nada fácil esperar, afinal, minhas expectativas já bem eram grandes desde que a sinopse e trailers começaram a pipocar na internet. E depois que o filme ainda caiu nas graças da crítica e do público, não havia dúvidas: O negócio era correr pra frente das telonas pra ontem!

A essa altura, todo mundo já sabe que Christopher Nolan (diretor de Amnésia, O Grande Truque, Batman: O Cavaleiro das Trevas) nos brindou com mais uma de suas obras primas – provavelmente a maior – e que Leonardo DiCaprio (O Aviador, Diamante de Sangue, A Ilha do Medo) entregou-se à um dos papéis mais brilhantes de sua carreira. Já sabemos que os aplausos, ovações, e tudo quanto é tipo de mérito já foram creditamos para A Origem, portanto, eu não preciso repetir. Mas, resolvi expor alguns comentários mais condizentes com o conceito do longa, sobretudo, devido a coincidência de eu ter me deparado e estudado assuntos que são tangíveis em diversos momentos do enredo de Nolan.

A realidade é o que você pensa


Boa parte da história vivida por Dom Cobb (DiCaprio) e seus companheiros parece coisa de ficção científica, coisa de irmãos Wachowski e de seu notável Matrix – com o qual o impacto de A Origem tem sido comparado. As semelhanças existem, sim, principalmente no bom sentido da complexidade e das questões as quais abordam. Porém, Chris fez um filme muito mais contundente, muito mais próximo da Psicologia do que da Filosofia, e tal capacidade palpável torna o assunto ainda mais interessante. Querem exemplos? Pois tente prestar atenção aos diálogos casuais em que os personagens citam as limitações do raciocínio humano em estado consciente, a capacidade “infinita” de criação do subconsciente, ou a melhor forma de sugerir uma ideia para que determinada “vítima” a aceite sem questionamentos. Pois é, isso já existe.

Mas se você ainda está confuso, com o perdão do trocadilho, vamos extrair do que exatamente o filme se trata. Em primeira instância, Inception fala sobre sonhos. Ou melhor, parece falar sobre sonhos. Podemos ir além e dizer que a narrativa aborda a maneira do nosso inconsciente/subconsciente responder aos estímulos cerebrais, ou ainda, podemos dizer que o filme fala sobre o poder da mente humana. Tudo isso é apresentando através de protagonistas capazes de “invadir” as memórias e lembranças de alguém em estado de sono, com intuito de “roubar” suas ideias escondidas ou, no caso principal, manipulá-las e até implantar um outro pensamento. Nunca ouviu falar de algo que possa “invadir” sua cabeça dessa forma?

Pois então, eis a palavra-chave: Hipnose (do latim hipnos = deus grego do sono + osis = ação ou processo). Ok, não é uma comparação tão simples e eu começo dizendo que está longe das proporções épicas que vemos no mundo de Cobb, mas, a essência da terapia hipnótica é compartilhada em A Origem por diversos momentos. Pra começar, vamos frisar algumas coisas. A hipnose é o estado mental induzido por alguém, aonde o sujeito passivo é colocado em “transe” – parecendo estar dormindo, mas sem estar – através de palavras, sugestões, e afins. Dessa forma, a pessoa hipnotizada entra num estado de relaxamento muito maior do que o normal, deixando seu racional de lado e projetando o emocional, além de elevar os níveis de ondas alfas projetadas pelo cérebro e ficar mais suscetível a possíveis mudanças comportamentais.

“Você está ficando com sono…”

É bom que todos saibam que entrar em transe não é um truque barato, uma magia obscura ou algo do além. Trata-se de uma prática milenar, que ganhou estudos e avanços científicos no século passado e tornou-se a grande aposta da medicina para o futuro. Mesmo quem nunca fez terapia, usualmente passa por esse estado ao ler um livro, dirigir um carro, ou prestes a dormir – sem perceber. Faz parte da “mecânica” do nosso corpo. A hipnose, por outro lado, é apenas uma técnica para estimular e controlar tais mecanismos, criando um elo entre o hipnólogo (que podemos comparar com o “arquiteto” do filme) e seu paciente (que seria, então, o “sonhador”). É assim que diversas pessoas têm encontrado a solução de seus problemas, uma vez que – hipnotizados – conseguimos acessar as informações enrustidas na memória e afastar nossos medos, anseios, e – literalmente – mudar de dentro pra fora.

Claro que, como o mundo no ensinou, tudo pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. No caso do filme, os mocinhos a princípio são vilões, mercenários pagos para fazer uma varredura mental em quem o cliente quiser. A vítima então é dopada e passa a compartilhar dos seus sonhos através de conexões entre ela e os invasores, que também precisam “dormir” co-ligados. A hipnose obviamente está longe de obter tal tecnologia. É necessário que o terapeuta fique acordado e seu paciente esteja “dormindo”, sendo apenas monitorado de fora. Se eu pudesse fazer uma comparação nerd, diria que hoje nós entramos na mente das pessoas usando um MS-DOS, enquanto o que vemos no cinema é puro Windows Seven 64 bits haha! Não temos essa “visualização gráfica” e em tempo real do interior, mas apenas o acesso ao que é dito e falado. O que não nos impede de fazer outro comparativo ainda mais próximo de Inception.

Dentre as diversas formas de se tratar com hipnoterapia, existe a seguinte: Um terapeuta utiliza três histórias, contadas em voz alta para o hipnotizado. Ele começa a primeira e a interrompe em determinado momento para iniciar a segunda. Repete o mesmo procedimento com a segunda para iniciar a terceira. Será nesta fase que ele irá citar a mensagem que considera necessária para gerar um determinado comportamento “positivo” por parte de seu paciente (para evitar que o mesmo seja muito ansioso, por exemplo). O terapeuta, então, após fechar esta terceira história com sua mensagem ou sugestão, fecha a segunda e, depois, fecha a primeira. Uma não precisa ter conexão com a outra. E a mensagem da terceira tem de ser sempre passada de forma indireta, como através de uma metáfora, um eufemismo… Tudo para que o cérebro aceite mais facilmente a mudança. Acha que não nos defendemos dormindo, é?

Sim, amiguinhos, o cérebro se defende! Confesso que achei engraçado a perspectiva de Nolan sobre nosso consciente “olhar” para o que está acontecendo de estranho, o que é representado pelas pessoas aleatórias que habitam os sonhos do sonhador. Não sei ao certo como funciona de verdade (e aparentemente nem os cientistas sabem direito), mas é por razões como essa que o indivíduo tem que QUERER ser hipnotizado. Quando se sente ameaçada, nossa mente pode sair do transe ou apenas não obedecer aos comandos sugeridos, considerando-os inapropriados perante o que acredita ser verdade. Em resumo, as transformações acontecem quando ela ACEITA uma nova verdade, algo que deve ser enraizado profundamente, pois é o nosso inconsciente (responsável por 80% do conteúdo que captamos) que define boa parte do que somos.

Isso explica algumas coisas do filme: Em primeiro lugar, os sonhadores são dopados para não saírem do “transe” antes do tempo necessário de seus intrusos agirem (senão, Fischer teria acordado logo no primeiro nível, durante a perseguição na chuva em que ele é raptado e percebe a ameaça). Em segundo, todo o plano da equipe de Cobb é milimetricamente persuasivo para que Fischer realmente acredite numa nova verdade, escolhendo as frases exatas que devem dizer e moldando-as para o lado emotivo – já que o subconsciente é mais emocional e abstrato – aproveitando-se de um estado que praticamente bloqueia os parâmetros racionais da vítima. Em terceiro, a profundidade de níveis simula a técnica citada da hipnose ericksoniana, como se “cavasse” um buraco mental o mais fundo possível para plantar uma nova ideia com eficiência.

E o limbo? Bom, eu tinha um conceito meio perdido sobre o limbo e achava que era algo similar a um “inferno isolado”, mas é exatamente o contrário. Na Igreja Católica, é considerado “um lugar fora dos limites do Céu, aonde se vive a plena felicidade natural, mas privado da visão beatífica de Deus” e, portanto, uma alegria suprema e eterna. Ou seja, é na verdade um paraíso – se é que isso pode ser chamado de “paraíso” – isolado. Talvez haja algo assim dentro de cada um de nós, porém, o máximo que acontece com alguém abandonado em estado hipnótico é que a pessoa caia em sono profundo. Supondo que, um dia, uma pessoa pudesse ser dopada, colocada em transe e abandonada, talvez ela chegasse ao mesmo limbo de A Origem – vivendo de sonhos. Mas friso que isso é só uma hipótese particular e ainda acho a ideia de limbo mais próxima de uma depressão profunda ou de um possível estado de coma.

Uma nova luz para a ciência?

É provável que já existam estudiosos espalhados pelos quatro cantos do planeta debatendo sobre A Origem e pensando em como ver o que os outros pensam – e a tomografia computadorizada é só um começo nesse caminho. Ainda assim, é interessante poder enxergar essa capacidade tão real do roteiro de Chris Nolan, da mesma forma que George Lucas, James Cameron e outras mentes visionárias do cinema puderam transformar sua criatividade em inspiração para a ciência. Falta muito para decifrarmos todo o processo cognitivo do ser humano – que com certeza beneficiaria milhões de pessoas dependentes de remédios e psicoterapia (além do surgimento de alguns “Dom Cobbs” da vida). Mas, uma coisa é certa: Sua mente é a cena de qualquer coisa que ela quiser.

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Sobre Will Pauley

Will Pauley, 23 anos. É publicitário e pseudo-filósofo nas horas vagas. Tem um chinchila de estimação, uma banda com influências de rock japonês, e uma namorada com cabelos bem branquinhos. Gosta de escrever bastante e por isso criou este pra compartilhar um pouquinho de tudo com todos que o visitam.
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Uma resposta para Inception: A Origem da Hipnose?

  1. Alyne disse:

    Olá Will

    Meu nome é Alyne e tenho 23 anos assim como vc.

    Primeiramente quero agradecer pelo fato de vc ter postado algo tão unico na internet. Estava procurando sobre o assunto e achei sua postagem!

    Sou hipnologa e atuo no campo de pesquisa.

    Bom, achei sensacional seu post. Sem comentarios….parabens!! Muito boas as comparações, etc. Mas decidi te escrever não para elogiar, nem tão pouco pra te criticar, mas sim para lhe informar que a hipnose não está anos luz de conseguir os mesmos efeitos do filme a origem. E posso te provar.

    Não estou aqui para te enfrentar (longe de mim algo do tipo), mas achei interessante manter seu contato, e trocas de informações, pois pessoas como voce sao raras! Meu msn é esse de contato e email tbm, qqr coisa, se estiver interessado, é só mandar um sinal de vida!

    Obrigada pela atenção
    ALyne

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