Um pouco sobre jrock e visual kei

X JAPAN em apresentação no Tokyo Dome, 2009.

Vou começar a minha saga de posts abordando um assunto no qual praticamente me especializei nos últimos anos: o visual kei. Porém, pra chegar lá eu preciso falar sobre j-rock, vulgo rock japonês. Sim, meus amigos, japonês também saber fazer rock – ô se sabe! Ás vezes, até muito melhor do que os ocidentais. Mas, antes de tudo, vamos esclarecer a correta difusão do termo.

Esse tal de “jotaroquê”…

Jrock  (abrev. de japanese rock) é nada mais, nada menos que o movimento do rock japonês em toda sua amplitude. Ou seja, toda e qualquer banda de rock, do pop ao heavy metal, que exista por lá pode ser tachada de jrock – incluindo até as que não cantam em japonês. Seria como se nós chamássemos de “b-rock” um movimento aonde NX Zero, O Rappa e Sepultura andassem de mãos dadas. Portanto, não se trata de um estilo, mas apenas de uma má difusão generalizada da palavra. Há ainda quem acredite na hipótese de “marketing” da indústria japonesa, como forma de divulgar seus artistas ao redor do mundo, de maneira exclusiva e com mais força. Mas isso é outra história…

De qualquer forma, existe em meio ao jrock um movimento distinto, que surgiu nos anos 80, se consolidou por lá nos anos 90, e agora virou produto de exportação nipônica após a virada do século. Trata-se do visual kei (linhagem visual). Inspirado por artistas do gótico, punk e do glam rock americano, a cena visual ganhou tal nome exatamente pelo figurino de seus músicos, que usavam roupas e maquiagens chamativas pra causar impacto em uma sociedade mega-conservadora. Também era uma forma de sugerir o resgate e expressão dos sentimentos individuais, uma vez que o Japão pós-guerra tornou cada cidadão sinônimo de igualdade entre as massas (a economia do país se reergueu, porém, ao custo do sacrifício particular de seu povo). E assim, o visual kei levantou ideologicamente uma proposta de revolução no meio – principalmente entre os jovens – tal como outras vertentes do rock já haviam buscado em diversas outras partes do mundo.

X JAPAN quando era punk "mêmo"! o/

Assim, várias bandas fizeram história nesse começo, onde podemos citar dentre elas: BUCK-TICK, D’ERLANGER, DEAD END, ZI:KILL e o X JAPAN. Mais tarde, o movimento deu origem a uma nova geração inspirada por estes artistas, que mesclaram particularidades de cada um deles e criaram algo realmente único. É quando podemos dizer que o visual kei – além da imagem e ideologia – passa a ter uma sonoridade própria, também chamada de “visual rock”. Os principais responsáveis nessa fase seriam o Kuroyume e o LUNA SEA, mas também poderíamos citar PIERROT, PENNICILIN e MALICE MIZER como grandes destaques. Atualmente, a cena transita entre a mescla de sua originalidade e fortes influências ocidentais, sendo alguns dos principais ícones o Dir en grey, Kagerou, the GazettE, Nightmare, Vidoll, MUCC, D’espairsRay, Phantasmasgoria, Deluhi, entre outros. Alguns inclusive chamam essa nova fase de “neo visual kei”.

LUNA SEA em sua fase mais dark-gótica-vk

Características do estilo

Era ガゼット (Gazette), virou "the GazettE", mas os japas chamam de GazettO. Entendeu? (y)

Apesar de não podermos considerar o jrock como um estilo musical (deixando o vk encarregado desse aspecto), é comum haver alguns detalhes similares entre o rock japonês. Começando pela escrita, tanto os nomes de bandas quanto os álbuns, singles e afins geralmente são escritos em inglês ou romanji – a forma adaptada dos kanjis japoneses para os padrões de linguagem e fonética ocidental. As variações de caixa alta/caixa baixa e o uso de sinais ortográficos também são típicos de seus artistas como uma forma a mais de liberdade e expressão (e é por isso que tem coisa “com” e “sem” caps lock aí pra cima, fora os pontos e vírgulas rs). As letras também podem incluir variações e muitas vezes são bilíngües – em japonês, com palavras, versos ou refrões em inglês.

Adentrando um pouco além, podemos dizer que todos os músicos japoneses têm uma visão mais aberta a influências externas, o que faz com que os seus artistas soem mais ecléticos do que o normal. Isso é especialmente comum no visual kei, onde as composições de uma banda podem variar entre o muito leve e o absurdamente pesado, em álbuns distintos ou em um mesmo trabalho. Cabe aqui inclusive uma ressalva: O termo “visual kei” e todo o movimento ainda é visto com certo preconceito por parte da sociedade japonesa, que consideram tais bandas quase como detratores de seu país. Isso talvez explique o porquê existem “ex-bandas-visuais”, que abandonam boa parte das características singulares do vk depois de um tempo, dos figurinos ao estilo sonoro (caso do Dir en Grey, por exemplo). Há outros grupos que sempre andaram em paralelo a cena e mantiveram algumas de suas particularidades – como o  L’Arc~en~Ciel, GLAY, Janne Da Arc e o Siam Shade – mesmo que também evitassem serem tachados de bandas visuais. Enfim, é um tema complexo que pode exigir até um outro post.

O Dir n grey era assim...

... E ficou assim (e o Toshiya - à esq. - tá parecendo um sushiman).

Mas vamos falar sobre o som do visual rock. Como dito, a ideia de expressar sentimentos é a essência do vk, portanto, nada mais natural que estes sentimentos serem compostos de formas variadas, conforme o momento do artista. O que não impede que existam certos clichês no meio, começando pela tríade que é a essência do “crossover”: o gótico, o punk e o metal. Junte isso com o experimentalismo de seus músicos – que incluiram ska, jazz, pop, música eletrônica e clássica no repertório – e aí sim teremos uma verdadeira salada do que é o visual rock! Um rock com influências de tudo. Abaixo, segue uns exemplos aplicados:

  • Vocais: Usualmente são mais melódicos que os ocidentais, com variações súbitas de notas e uma boa dose de melancolia. Alguns soam operísticos, mas de uma maneira bem distinta do heavy metal – por exemplo – onde a maneira suave como encaixam as notas é o mais notável. Vibratos e drives leves (aqueles “rasgadinhos na voz”) são comuns, e alguns vocalistas atuais também usam guturais e screams;
  • Guitarras: Notas limpas, notas mortas, dedilhados e overdrives bem leves, além de diversos acordes “swingados”. Embora possa haver uma guitarra base e uma solo, geralmente ambas prezam pela polifonia e não se prendem neste aspecto. Bandas atuais usam afinações um pouco mais baixas, drops e distorções mais pesadas também;
  • Baixo: Tem a mesma importância (e às vezes até mais) do que as guitarras, ou seja, ajuda a ditar o ritmo e melodia da música, trabalhando grooves e fraseados que conduzem a harmonia (não é a toa que muita gente acha que os baixistas japoneses têm tanto destaque nos arranjos);
  • Bateria: Uso muito amplo e variado, dependendo da proposta de cada música. Dita algumas quebras de ritmo/harmonia e o uso de pedal duplo não é tão comum, porém, existe em algumas bandas.
  • Outros detalhes: Aplicação de sintetizadores, backing vocals gritados/urrados, presença de palco mais teatral e, em certos casos, a influência de melodias típicas do Japão em determinadas canções.

Visual rock do lado de cá

myv em seu segundo show tupiniquim

Já não é novidade que o jrock – sobretudo o visual kei – tem crescido em países da Europa, nos EUA e na América Latina. A difusão rápida que a internet proporciona, com o compartilhamento de arquivos e portais como o Youtube, facilitou muito a divulgação das bandas japonesas. Se antes rock japonês era só sinônimo de anime (aos quais muitos artistas compõem trilhas sonoras), hoje já se trata de uma cena que desperta interesse tanto quanto o rock inglês, alemão ou finlandês já fizeram em passados variados. E assim, as turnês mundiais que pareciam impossíveis para os músicos do lado de lá – e os fãs do lado de cá – tornaram-se reais e concretas. Só aqui no Brasil já contamos com a passagem do Charlotte, LM.C, Monoral, Kagrra, An Café, Versailles, miyavi (2 vezes!), etc.

Outro ponto interessante é, obviamente, as bandas ocidentais que surgiram inspiradas pelos japoneses. Algumas até conseguiram certo sucesso comercial – como o caso dos alemães do Cinema Bizarre, ou dos russos do Akado (pra não falar do Bill do Tokio Hotel rs…) – mas poucas foram além da notável androginia do visual kei. Na realidade, dá pra contar nos dedos o número de bandas que imergiram nos conceitos do vk visando representá-los em suas próprias composições. Há alguns nomes mais bem sucedidos espalhados pela Europa, como o GothicDolls (Espanha), SAI (Suécia) e o CLOSER (França). Mas, por incrível que pareça, é aqui no Brasil que as tentativas têm sido melhores. Dois belos exemplos foram a Personna e a Ma:kiavel, ambas cariocas e que lançaram material próprio de muita qualidade antes de encerrarem atividades – porém, só em japonês/inglês. Atualmente, diria que as maiores promessas brazucas estão nas mãos da Allumina (Rio de Janeiro– RJ), Dreizehn XIII (Juíz de Fora – MG), Madelleine (Porto Alegre – RS), Rosarium (Santos – SP) e a Z’ephyruS (Jundiaí –SP). Quem sabe assim não surge uma cena nova (e mais legal) na MTV, não é haha?

Z'ephyruS: Conheço esses caras de algum lugar...

Ouça você também!

Pra fechar esse post didático, seguem 10 bandas que se encaixam bem no contexto narrado (3 clipes de cada – sendo geralmente um diferente do outro, pra mostrar as variações ;]). Então, é só clicar e conhecer um pouco do que o oriente tem pra te oferecer:

  1. alice nine. – RAINBOWS ; Sleepwalker ; the beautiful name
  2. D – Kaze ga Mekuru Page ; Kuon ; Yami no kuni no Alice
  3. Dir en grey – Ain’t afraid to die ; Raison d’Etre ; Vinushka
  4. D’espairsRay – DEATH POINT ; HORIZON ; REDEEMER
  5. Gackt – Flower ; Setsugekka (The End of Silence) ; Vanilla
  6. L’Arc~en~Ciel – DRINK IT DOWN ; SHINE ; Seventh Heaven
  7. Kagrra, – Satsuki ; Utakata ; Uzu
  8. Nightmare – Criminal Baby ; Dasei Boogie ; White Room
  9. SID – 2ºC Me no Kanojo ; Namida no Ondo ; Natsukoi
  10. the GazettE – Zakurogata No Yuuutsu ; Cassis ; The Invisible Wall

NOTA: A escolha dos PVs – promotional videoclips – foi meio aleatória, portanto, sem churumelas que mais pra frente tem mais!

Se você gostou da matéria, deixe um comentário e divulgue o blog por aí, pode ser? ;D

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Sobre Will Pauley

Will Pauley, 23 anos. É publicitário e pseudo-filósofo nas horas vagas. Tem um chinchila de estimação, uma banda com influências de rock japonês, e uma namorada com cabelos bem branquinhos. Gosta de escrever bastante e por isso criou este pra compartilhar um pouquinho de tudo com todos que o visitam.
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4 respostas para Um pouco sobre jrock e visual kei

  1. nextconqueror disse:

    Boa matéria cara ^^

    Curti pakas. Deu para aprender um pouco mais desse universo que admiro mas que estou sempre meio por fora.

    ^^v

  2. eric yuri disse:

    da até gosto de ter um vocalista tão persuasivo na minha banda : )
    ótima matéria will, dá até pra fazer de tutorial pra quem não conhece tanto ! o/

  3. Marcos disse:

    Fabuloso o seu blog cara! Valeu por apoiar à “Dreizehn”,banda que compõe o quadro da “subzone”.Subznone é um selo indenpendente que visa promover bandas de “visual rock”,ou “j-rock” se preferir.
    Se as pessoas mostrassem mais a sua “paixão” pelo j-rock com toda certeza já teríamos um cenário forte no Brasil.

    abraços!!!

  4. Kuro disse:

    Excelente post!!!

    [PV] Babel – XIII-Dreizehn[BR] :
    O PV da música “Babel” é o primeiro da banda, produzido de forma independente pelo diretor do vídeo e conta com apoio de profissionais da área audiovisual, sendo captado e finalizado em alta definição (HD).
    Esse teaser é apenas uma amostra do material que está por vir, por favor, aguardem, o material terá qualidade internacional, com confecção de visuais exclusivos para o PV.

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